Quinta-feira, Maio 06, 2004

Legado

Viver um amor o tempo suficiente para adormecer a prudência dos gestos, para despir o olhar até cada vez mais dentro do abismo. O tempo justo para as cores mudarem. O tempo bastante para o desejo crescer muito para além dos corpos e tornar-se luz em volta. O tempo necessário para ter valido a pena tudo o que doeu.

On the other hand

A esperança no ouro encoberto sob a penumbra do que não se escolheu nem queria, que tomou anos de vida à revelia da vontade. Só ter as mãos nuas para o procurar e tentar resgatar da terra ardente. A certeza dos dias cada vez mais curtos, a luz sedenta e breve, quase relâmpago a afastar ainda a noite iminente. O medo, sim, a faca longa e fria do medo a trespassar vezes sem conta o fantasma da perpétua distância, inelutável sentença sem recurso. A força da gravidade obrigando a ficar, vencendo no último limite da coragem a tentação de partir, de ser ainda de outro modo. Sonhar em trazer a glória da morte à expectativa inútil, à pequenez sem espaço do presente sempre e só translúcido. A dúvida doendo no limiar incerto de cada madrugada a mais.

Domingo, Outubro 05, 2003

Algures entre o brilho e a decadência: o percurso inevitável.

Terça-feira, Setembro 30, 2003

Errância

A errância pode ser uma maldição, mas não esqueçamos que é também a suprema liberdade, a liberdade total de abrir caminho, de suportar a lonjura das raízes, de aguentar o brilho, tantas vezes excessivo, de outras verdades que quase nos cegam.
E a errância maldita sobre todas as outras não é a do nomadismo do corpo, sobretudo quando levado a mudar de lugar para poder devorar mais tarefas, receber mais vassalagens ou sobressair em mundana glória: a praga indelével vem com a errância das almas sobre expectativas desfeitas.

Sábado, Setembro 27, 2003

Ver o teu olhar na ausência. Ouvir a tua voz, a exacta inflexão. Saber que o tempo vai devorar tudo. Saber que, se te fores, nada mais interessa.

Sexta-feira, Setembro 26, 2003

Jogo da totalidade

a mar
amar
marte
amar-te

Quinta-feira, Setembro 25, 2003

"I must be gone and live, or stay and die".
O mesmo caminho para o amor perseguido e para o desamor continuado.

Quarta-feira, Setembro 24, 2003

"Real poets are not confessional. My concept was to transform the events of my life into legend".

Stanley Kunitz

Quando tudo se equivale, nada conta.

O homem a seu lado disse-lhe, num esforço de comunicação amável, que ela não tinha que dar explicações sobre os seus motivos a um conjunto indeterminado de pessoas que a liam, mas não a conheciam; ela limitou-se a sorrir, sabendo que essas eram as pessoas a quem devia uma palavra de esclarecimento, porque os que a conhecem na realidade obviamente não precisam de mais.